domingo, 5 de outubro de 2008

"Anatomia do Sorriso"



“O sorriso enriquece os recebedores sem empobrecer os doadores.” - Mário Quintana


Ninguém o compra, nem empresta, pois muito vale.
E se o damos, enriquece o dia de quem o ganha.

Um sorriso consola,
É remédio:
Traz felicidade na lembrança
E coragem na tristeza.

Mas dura apenas um instante o seu sorriso!
Por que não aprendeu a dá-lo?
Livremente e eternamente?
Assim é pobrezinho seu sorriso, muito pobre!

Quem te negar um sorriso
Despreza quem dá esteio
E é justamente a amizade em si
A profunda força.

Ninguém sozinho, fechado, desanimado,
É rico e generoso no instante de repouso...
Aquele miserável conforto caseiro
Nem é palpável de nova prova
Que possa durar tanto...
Só nos vale então: o valor do sorriso!

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

"O Jardineiro Vesano (descrucificador das flores de carne)"


"Os que me falam em religião querem o meu dinheiro ou a minha liberdade" Proudhon


ATO 1
Despreguei,
Com moto-serra
Despreguei!
Eu,
Sozinho,
Quieto,
Subi na escada
E podei os antebraços
E podei as canelas
E o corpúsculo madrigaz
Despencou inteiro
Na pilha de esterco
Que estrumava o madeiro.

ATO 2
Teci no pescoço encarquilhado
E na corônula farpada
Um espesso emaranhado de cordas
Em cerol vítreo mergulhadas.
Estiquei, uni e torci,
As pontas soltas
Umas nas outras,
E as enodei no pará-choque
Do umbrático jinrikisha

ATO 3
E ora trotando,
Ora galopando,
Sob febo,
Sob febe;
Por pauis
E bulevares;
Por praças de abantos
E pérgulas de basiliscos;
Defronte
Alcácer imponente
E choupana impotente,
Arrastei,
Cientificamente
Arrastei,
A hóstia esburgada
De Jeová.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

"Santa Madrasta do Diabo"


“quando dou, não tomo/ multiplico, somo/ amo, mas não domo/ sou fada e gnomo/ quando eu dou, eu como” – Patrícia Clemente


A Ti invocamos
Debochado arcanjo d´Esbórnia
Debaixo da insueta macieira puela
Batendo e jaculando
Em madrugadas de plenilúnio
Nos teus lívidos pômulos gípseos

Santa Madrasta do Diabo

Só em Ti há felicidade
Só de Ti mentira agre é mélica verdade
Só para Ti nossas genuflexões são

Santa Madrasta do Diabo

Ó Anfitriã das garbosas sentinas
Ó Promotora de incestos e sodomias
Ó Rainha dos crápulas apívoros
Ó Encantadora de áspides e minhocas
Ó Delibadora do álbido licor lúbrico
E do noto icor rúbido
Ó Tríbade do tegumento anatado
da boceta balsâmica
dos pomos túmidos
dos mamilos nacarados
dos mitenes acetinados
das anchas ancas
do olho vesco por esculturas de carne brunido
do tímido riso libertino
Mostrai-nos Lúcifer
O Autosito
Bendito fruto dos vossos conhecimentos
Para que sua luz postrema nos guie
Através dos Vales Somíticos

Santa Madrasta do Diabo

"Ser Vaginal Domando"



"A maior invenção masculina é a virtude feminina." Cornelia Otis Skinner (1901-1979), atriz americana.



O maquiavélico ser vaginal,
Quando domado, abocanha meu pau;
Lambuza com a saliva minha alegria
E se rebaixa enfim como devia.


Pede pau no cu,
Pede pau na xana
Pede porra na boca e me chama:
De Deus,
De Mestre,
De Verme humano;


Grita,
geme,
implora,
Mas eu não a amo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

"O Gárrulo Entorpecido"




“Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.” - Antonin Artaud


Tua única parada é a dor,
E dizer sem fazer já não é capaz.
Resta a todos:
Perder sempre ou persistir resignado.

Desespera-se, defende-se, corrompe-se:
A plebe te culpa
De sonhar todo mundo de partida dos sonhos!

Dois impostores conseguires ao redor
Além da naturalidade do mentiroso, a ponto de não mentir.

Teus senhores encontram verdades estraçalhadas,
Armadilhas, desculpas, corações, utilidades;
Duvidando, contudo, que a vida é só para o Triunfo.

Homem bom e enganado
Capaz de pensar entre Reis
E tratar da mesma forma quando odiado
Sejam os bons, sejam os maus...

Em ti perder a Vontade
Derrota músculos e nervos...

Pretensioso segundo,
Vem como se fosse uma época no existir do pensamento.

"O Ser Canábico"




"Prefiro o paraíso pelo clima e o inferno pela companhia." Mark Twain


Prazer alegre é meditar chapado
E ser estranho estrangeiro na própria terra natal,
Passeando o olhar por cenas reais que fazem refletir
Debaixo das imensas nuvens brancas da manhã
Fumando a doce dose certa de erva paraguaia.

A pele se refresca
A mente se expande
E o corpo relaxado deita na rede de pensamentos...

Imite-me se quiser
Sonhando de sonhar
Lutas sem batalhas
Contra as forças que sempre brincam
De nos deteriorar.

"Estucha de Carne"*




“In trutina mentis dúbia
Fluctuant contraria
Lascivus amor et pudicitia” (Carmina Burana)



De prateadas cápsulas o tambor recheado
O suor da cútis o frio cano lambe
Dilatadas as pupilas
Emudecida a laringe
Pavor? Excitação?

No domador o sorriso impudente
No domado o choro soluçante
Uma voz raucíssona gritando
O index no gatilho obrigando

Indo e vindo, a aveludada pata tremulante,
E as lágrimas de nojo e prazer
Mergulhando juntas no gramado
Do vexame e da glória!

A boca dentígera engole e expele a glande
A boca anodonte jorra vidas
Os opostos corpos baldosos unidos
Graças à força
Graças à fraqueza
Graças a ti, beleza!




*Poema dedicado ao Marquês de Sade.